INTERIORES

YASMIN BIDIM

O poeta português Herberto Helder uma vez disse que na poesia, "o único elemento que importa é o tempo, e o espaço é a metáfora do tempo". A exposição "Interiores", é uma curadoria de obras da poeta e artista multimídia Yasmin Bidim que de modos bastante diversos dão corpo a essa metáfora. A poeta pensa os interiores em suas dimensões espaciais, geográficas e psíquicas, sempre considerando o entrelaçamento dessas potências. A exposição traz fotografias, poemas e videopoemas. Alguns já publicados em seu livro de estréia, "Livro dos Interiores" e em revistas eletrônicas, além dos videopoemas que estão no seu canal "Poesia em Obra" no youtube. São trabalhos escritos entre 2019 e 2022 que revelam um eu-lírico cuja experiência de estar no mundo é atravessada pela solidão e solitude da vivência intensa dos espaços domésticos, que se desdobram em múltiplas possibilidades narrativas e estéticas.

I - Casa: espaço

"... dobramos as ruas para dentro de casa – o lado de faro do lado de fora…"

Ana Martins Marques

poemas silenciosos

como o meio da tarde

de um dia de semana


poemas mudos

dentro de quatro paredes

confinados e confusos


versos pálidos

condenados

a serem só mais um poema

exaltados

por serem, ainda, só mais um poema

Algum dia do mês de maio

Meus poemas são domésticos

como canecas no armário

que não formam um jogo


Como roupas no varal

cuidadosamente estendidas

meias em par

calcinhas lado a lado

camisas esticadas

sacudidas assim que saem da máquina

Algum dia do mês de maio

Revestimento

há tanta vida nos vazios

debaixo da mesa da cozinha

e as dobras das cortinas

respiram silenciosas

das paredes brota

odor de transpiração

fria e terrosa

a casa treme e dorme e acorda

e ganha rugas invisíveis

de tão grandes e estáticas

não há um só canto sem poeira

que brota e se transmuta em

seres intergalácticos

há casas por toda parte

uma fauna de aço e pedra

cal, barro e um tanto de vazio

todo cheio de movimento

somente testemunhado

pelos azulejos do banheiro

Revestimento - videopoema

Cinza

Ainda sonâmbula quando

segurei a mão do gato

e dormi mais um pouco

pois chovia


Ainda cinza quando

enchi a caneca

com café queimado

e senti incômodo


nesta manhã dormi

perdi sua encenação primeira de cada dia

o despertador

a madeira

seu deslocamento espaçoso

na periferia dos meu sentidos


já havia sido

o dia começou sem jeito

com um atraso catastrófico


Perdi, nesta data,

o movimento singular

de seu corpo vivo

num instante qualquer.

cinza - videopoema

Mora na filosofia

Era gerânio

o aroma

que entrava

pelos sete buracos da sua cabeça


Era plena

a brisa que voava

pela varanda de

azulejos decorados

Samambaia, jiboia

e zamioculca

Alguém varria a calçada

alguém latia

em vão

Sorria e ouvia

o barulho da eletricidade

da queda d'água


Míope,

olhava resignada

os tacos

trecos soltos

quantos

velhos repletos

de histórias e ácaros

II - Casa: matéria

"crer em nada mais que o

plano lúcido dos móveis.

Não nos pedem muito:

irmãos de gravidade

toleram o que é nosso

são calmos guardiões

da pretérita e viva

duração da casa"

Julia de Souza, As durações da casa

Revestimento 2.0

o que vemos, o que nos olha

com Georges Didi-Huberman

I


"mas a modalidade do visível torna-se inelutável – ou seja, votada de uma questão do ser – quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder"

Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha


espero, e enquanto,

toco a porção de mundo que a mim me toca


leio as palavras que

à minha vista chegam

e vejo as imagens

que os olhos míopes alcançam

ajo e

reajo

sobre as coisas

que me atravessam

mas como coisa privilegiada que sou

(imagem projetada de mim mesma)

eu vejo, na matéria luminosa,

sempre menos

sempre só aquilo

que uma consciência em crise deseja


permanentemente humana,

procuro na coisa sempre o espelho

sempre o olho que me olha

alheia ao óbvio:

que a coisa — pobre coisa! —

nunca jamais me olha

II


"... coisas a ver de longe e a tocar de perto, coisas que se quer ou não se pode acariciar. Obstáculos, mas também coisas de onde sair e de onde entrar"

Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha


verde vista ponto

balançam vasos

ventam folhas

coincidências físicas

plásticas

acústicas


o que vemos

contra o que nos olha

ocorrências fantásticas

problema ótico

um é verde

outro é verdade

um é mato

outro é metade


através do vidro

uma falsa imagem

o olho fixo

na paisagem acrílica

não é mato

mas mata

aquele é feito pela metade

III


"Como mostrar um vazio?"

Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha


daqui da janela

eu vejo o vaso

que atravessa a vidraça (força acrílica)

as plantas ao redor

o reflexo verde no vidro (experiência metafísica)

a planta que grita               

e gira no vento (manifestação onírica)

daqui da janela

o vaso envolto em grama

posa pausado

como um retrato de planta

de mato

que vaza pelas bordas

e escora a parede fria

rachada cerâmica do vaso

que eu vejo

e que vazio

me olha de volta

vidrada

igual esvaziada

aqui na janela   

PREMISSA

eis aqui uma premissa

é boa a luz para um poema

é certo o cenário para o devaneio


temos aqui um pretexto

pra escapar devagar da vida

e entrar em silêncio na poesia

sentar na platéia e ver

ao lado da janela

a poesia sendo somente ela

luz que salta aos olhos

instante de vácuo

o extraordinário

do infraordinário

ali naquela sala

quando a vida deu um aceno a própria vida

eis ali uma premissa

uma promessa

de poesia

PREMISSA - videopoema

A PERNA

o dia eu conto nas idas e vindas pelo corredor

mas minha perna está quebrada

e contra a lógica e a razão

cada passada é nada mais que inércia

cada passada é nada mais que a máquina

e o mundo girando em equívoco

a luz que resta é só o desvio

que entra pela janela

e no corredor

contra a lógica e a razão

é quadrado e não redondo

o sol que entra pela fresta

a perna que passa e manca

por um instante detém-se

pois é quadrada e dourada

a mancha

e agora, sem arrastar-se e

erguida firme

a perna descansa

e espera sem pressa

que o sol desapareça pela janela

III - Casa: memória

Nome próprio

daquele homem sobrou

quase que nem o

nome


na estante um retrato

de lado

de longe


daquele homem não sobrou

nem história


só restou um cômodo

uma crosta de passado

a mesa pesada

os óculos

quebrados

as gavetas

as cartas

os livros

apartados do tempo

soltos no espaço

Áudio, versão em espanhol do poema anterior, traduzido e lido por Jesús Montoya.

Circle Play

daquele homem sobrou apenas

o pó

impregnado

o nome de um país

uma paisagem

um atlas

um imaginário


daquele homem sobraram apenas

outros homens

o pai

o filho


recolhemos do chão

as sobras do homem

limpamos o nome

fizemos novos documentos

cruzamos o mapa

nunca mais falamos do homem


mas na carteira de trabalho,

nos passaportes, inventários

jaz

ele

o homem

o nome

o próprio


Rua Sergipe, 188.

Em casa há uma estante de livros, onde estão guardados os livros que

já foram lidos

e os que ainda serão.

Dessa estante, Ian pegou o livro As Palavras de Jean-Paul Sartre e perguntou de onde veio esse livro? Respondi que é de minha mãe, que peguei da casa dela um dia e trouxe comigo para ler.

Nunca li As Palavras

Nunca li Sartre

Mas resolvi folhear o livro

e encontrei esse bilhete

escrito por Zulmira.

Zulmira é minha tia Mira. Tia-avó.

Era irmã da minha vó Lourdes e morreu no ano de 2009 quando eu ainda era estudante de cinema.

Eu li o bilhete e pensei na minha tia Leninha. Minha tia Leninha é a filha mais nova da minha tia Mira. Tia Leninha é prima da minha mãe, então, na verdade ela é também minha prima. Mas sempre a chamei de Tia porque é estranho ter uma prima que não tenha a mesma idade que a sua.

Minha Tia Mira e minha vó Lourdes nasceram em Pitangueiras.

cidade que fica no interior de São Paulo.

Minha mãe e minha tia Leninha também nasceram em Pitangueiras.

Eu nasci em Sertãozinho, que fica muito perto de Pitangueiras

Tão perto que fui registrada no cartório de Pitangueiras e por isso, embora eu tenha nascido em Sertãozinho, sou na verdade pitangueirense como minha tia Mira, minha avó, a tia Leninha e minha mãe, Sônia.


Sônia Ap. Bidim

Biblioteca Particular

Diz o carimbo na folha de rosto do livro do Sartre que além das palavras que dizem o nome da minha mãe contém também as palavras que dizem o nome do livro

As Palavras

O que será que significa eu ter encontrado as palavras

escritas pela minha tia-avó dentro do livro chamado

As Palavras

e que por causa desse bilhete estou agora escrevendo eu mesma mais palavras nesse poema?

Será que significa alguma coisa esse redemoinho de palavras e memórias?

A coincidência da presença da linguagem?

Ou será a constatação da sua onipresença?

Será coincidência que vó Lourdes e tia Mira, irmãs, tenham se casado também com dois irmãos?

E que os irmãos, meu avô Genésio e meu tio avô Armindo,

tenham morrido ao mesmo tempo?

Um dia de chuva, um raio, um trator.

Um acidente.

Um acaso.

Uma coincidência.

Será que significa o destino?

Será que é preciso que haja algum significado?

Talvez o acaso e a escolha sejam os grandes significantes da nossa história. Pelo menos para vó Lourdes e tia Mira foram.

Olho o bilhete.

Por que estava dentro do livro de minha mãe?

Recordo que por alguns anos, pelo acaso ou pela escolha, tia Mira e vó Lourdes moraram na mesma rua em

Pitangueiras.

A rua Sergipe.

Lembrei que quase todo dia minha tia Mira passava na

casa da minha avó. Ela sempre entrava pela porta da cozinha e se sentava na mesa.

Lembro da sua voz rouca e que gostava de tomar coca-cola.

Lembro também que muitas vezes ela ia até lá para usar o telefone

e pensei que talvez o bilhete seja a anotação feita depois de uma ligação que ela tenha feito.

Tentei decifrar o bilhete. Sei que meu tio Tarcísio, marido da tia Leninha é de Vitória, no Espírito Santo.

E imagino que o endereço anotado pela minha tia Mira seja algum lugar que a filha tenha

morado ou visitado.

Mas não consigo entender por que ela deixaria um bilhete para a filha na casa da minha avó. Por que um bilhete da minha tia Mira para minha tia Leninha estaria dentro do livro da minha mãe?

Tenho em minhas mãos um enigma.

Uma pista para investigar um episódio provavelmente sem grande importância da história da minha família.

Uma combinação de palavras escritas muitos anos atrás que apareceram para mim destituídas do seu sentido original.

Não conseguindo decifrar o contexto do bilhete

fiz o que me pareceu óbvio: me voltei para o tempo presente e procurei no Google Maps o endereço anotado por tia Mira:

Me parece uma casa nova. Uma casa que talvez tenha sido reformada. Tenho quase certeza que a casa que havia ali quando tia Mira escreveu o bilhete não era essa. Ou pelo menos não era assim. Essa imagem supostamente real e atual do endereço anotado me parece totalmente desconectada na minha tia Mira.

Não me diz nada sobre ela, não me faz pensar nela.

Não me traz nenhuma memória.

Entendi que

As Palavras e

as palavras do bilhete e

as palavras deste poema

fizeram com que eu vivesse por instantes um passado do qual eu brevemente faço parte.

Ainda que eu não saiba quando o bilhete foi escrito,

eu lembro da tia Mira.

Nós existimos simultaneamente por alguns anos e mesmo que eu não decifre o bilhete eu consigo vê-la ao lado do telefone da casa da minha avó.

O telefone cinza de discar que ficava em cima da mesinha

de madeira preta com tampo de mármore branco ao lado do sofá. Posso vê-la ali escrevendo o bilhete para minha tinha Leninha. Vejo com tanta precisão que tenho certeza que foi assim que ocorreu.

A imagem

da casa no Google Maps me fez lembrar que uma vez me disseram que quando deixamos de visitar lugares de nossa infância conseguimos de fato preservar a memória desses lugares.

É verdade.

Minha avó já não mora mais na rua Sergipe e há quinze anos que não vejo a casa da minha infância.

Mas a imagem dela está em detalhes na minha memória.

Lembro do portão verde e da grande varanda da frente

com sua enorme porta de correr e os antúrios.

A cadeira de metal e tiras de plástico.

Lembro do piso de caquinhos que tinha dois padrões:

um que era de azulejos vermelhos com alguns detalhes de azulejos pretos e outro que era inteiro de azulejos azul-esverdeado, parecendo uma piscina ou um grande lago.

Rua Sergipe, 188.

Pitangueiras.

São Paulo.

Vocês podem procurar no Google Maps mas não vão encontrar a casa da minha avó.

Vão encontrar a imagem de uma casa sem passado.

A casa onde passei parte da minha infância não existe

no Google Maps. Em

As Palavras, Jean-Paul Sartre

conta-nos sobre sua infância na casa do avô e sobre como tornou-se escritor.

Enquanto vivia com a mãe e os avós ele escreveu suas primeiras histórias, suas primeiras palavras.

Em 1998 eu vivia com minha mãe, minha vó Lourdes e meus irmãos em

Pitangueiras,

na casa da rua Sergipe.

Nesse ano, nessa casa, quando tinha dez anos, escrevi meu primeiro poema.

Nele eu falava como era bom ser criança.

Foram quase vinte anos sem que eu escrevesse outro poema.

Agora, com trinta, as palavras deixadas por tia Mira,

que encontrei dentro do livro As Palavras,

motivaram este novo poema

que me leva a ter exatamente a mesma conclusão que tive há mais de vinte anos:

Era bom ser criança na rua Sergipe, 188.

Na casa da vó Lourdes, vizinha da tia Mira.

Bio

Yasmin Bidim é pesquisadora, poeta, videoartista e produtora cultural. Faz doutorado em Estudos de Literatura na UFSCar. Produz no YouTube o canal de videopoesia Poesia em Obra, onde divulga trabalhos autorais. Em 2020 lançou seu primeiro livro de poemas, o Livro dos Interiores (Penalux). É ensaísta e crítica de arte e cultura, tendo trabalhos publicados na Revistaria, Jornal Relevo, Totem & Pagu, Revista Crua e Revista Aboio.

Agradecemos sua visita